“Cinema comunitário, desde a visão ancestral até nossos dias”: um ciclo comprometido com a identidade e a realidade

 

A Mostra de Cinema Comunitário Ibero-americano, que se realiza de 12 a 26 de setembro no 4º Encontro de Redes IberCultura Viva, busca abrir espaço para projetos audiovisuais que promovam a diversidade, a solidariedade, a colaboração comunitária e o autocuidado. Também retoma narrativas e modos de produção que às vezes ficam de fora dos circuitos convencionais de exibição e distribuição, como o cinema sem autor, o cinema colaborativo, o cinema etnográfico, o cinema feminista, o cinema político ou militante, o cinema LGBTIQ, o cinema experimental, entre outros.

Quatro ciclos foram programados para ser exibidos ao longo das duas semanas da mostra: “Cinema comunitário, desde a visão ancestral até nossos dias”, “Cinema comunitário, Cinema de crianças e para crianças e adolescentes”, “Cinema e audiovisual comunitário com perspectiva de gênero”, e “Séries web comunitárias e transmídia”. Os dois primeiros estarão disponíveis na página web www.encuentroderedes.org entre os dias 13 e 19 de setembro; os outros dois ciclos, de 20 a 26 de setembro.

O Ciclo de cinema 1: “Cinema comunitário. Desde a visão ancestral até nossos dias”, que abre neste domingo, reúne projetos que produzem, a partir do olho coletivo, um cinema comprometido com as realidades sociais e culturais, o desenvolvimento e fortalecimento da cultura e da identidade e a defesa de seus direitos fundamentais. Nesta seleção entraram trabalhos de Grupo Chaski (Peru), Thydewá (Brasil), Coletivo de Comunicações Kuchá Suto de San Basilio de Palenque (Colômbia), e Cinema em Movimento (Argentina).

Grupo Chaski: o cinema como espaço de entretenimento, reflexão e inclusão

Nos anos 1980, quando o Grupo Chaski começou a exibir filmes onde as salas de cinema não chegavam, a ideia era ir aos lugares mais distantes para levar o cinema às pessoas. O traslado era feito da maneira que fosse possível: em burro, em caminhonete, a pé. Com uma média de três projeções por dia, eles chegaram a visitar quase todos os departamentos do Peru em coordenação com associações juvenis, clubes de mães, comedores populares, grupos paroquiais, sindicatos, etc.

“Desde o início Chaski buscou a forma de conectar o bom cinema (que entretém, emociona e faz pensar) com o público de todo o país, usando-o como pretexto para criar espaços de informação, reflexão e inclusão. Sempre se pensou em um cinema que fosse espelho e reflexo de nossa identidade, de nossa cultura e realidade”, comentou María Elena Benites Aguirre, diretora do grupo peruano, em entrevista a IberCultura Viva em 2015.

Criado em 1982, o Grupo Chaski é uma associação civil sem fins lucrativos que realiza atividades no campo da produção, da difusão e da formação audiovisual. O grupo é formado por um coletivo de cineastas, comunicadores audiovisuais e gestores culturais. Sua história se divide em duas etapas: uma nos anos 1980, voltada para a produção e exibição de filmes; outra a partir dos anos 2000, quando se cria a Rede Nacional de Microcines, uma plataforma de comunicação comunitária onde se exibem e produzem filmes que fomentam valores, reflexão e entretenimento.

Neste primeiro ciclo da Mostra de Cinema Comunitário Ibero-americano, o Grupo Chaski e a Rede Nacional de Microcines apresentam os seguintes curtas-metragens: “Hilos de fé”;  “Ch’iaraje, granizo de piedras y ríos de sangre” e “Tangarará”. “Hilos de fé“, uma produção do Microcine Kushka, é um documentário sobre os diversos protagonistas da Festa da Virgem de Carmen de Paucartambo, entre eles os que se encarregam de confeccionar os trajes dos dançantes.”Ch’iaraje, granizo de piedras y ríos de sangre” (Microcine Legaña de Perro) centra-se no Ch’iaraje, uma prática cultural de respeito à Pachamama, realizada pela população de Ch’eqa e Qewe. “Tangarará” é, por sua vez, a primeira cidade fundada pelos espanhóis no Pacifico Sul e a primeira cidade do Peru. Este documentário do Microcine Perlacine mostra, depois de mais de 400 anos, o contraste entre a história e uma sociedade que foi esquecida.

 

Cinema em Movimento: oficinas como espaço de transformação social e debate

“Cine en Movimiento” é uma organização social criada em Buenos Aires (Argentina) em 2002, que, desde a perspectiva da educação popular, se propõe a apresentar as ferramentas da linguagem audiovisual para que os grupos, as organizações sociais e as comunidades possam emitir sua própria mensagem. 

As oficinas de Cine en Movimiento são como um espaço de transformação social e debate em que as comunidades podem, mediante a linguagem audiovisual — e seus diferentes usos —, gerar as próprias mensagens e encontrar um espaço para pensar e se transformar, retomando assim seu papel de atores culturais ativos na recriação de sua realidade. 

Combinando a educação popular e as ferramentas do cinema e da fotografia, as oficinas oferecem capacitação técnica sobre os instrumentos requeridos para a produção de material audiovisual, assim como o manejo das câmeras, do som e da iluminação, sob uma lógica de intervenção itinerante. O trabalho é feito em distintos territórios, como a Cidade Autônoma de Buenos Aires, o Conurbano Bonaerense e localidades do interior da Argentina, em articulação com outras organizações, escolas, sindicatos, ONGs e instituições públicas. 

Desde sua criação, foram realizadas mais de 300 produções audiovisuais. Passaram pelas oficinas mais de 2000 crianças, adolescentes, jovens e adultos. As produções audiovisuais que se apresentam neste ciclo foram realizadas nas oficinas de Cine en Movimiento, junto a diversas organizações sociais da Área Metropolitana de Buenos Aires. Serão exibidos curtas vinculados à temática “Cinema comunitario, cinema curador” (“Todo por ella”, “Podría ser hoy”, “Rescatarme para rescatar”, “El pibe”, “El trinche”, “El paredón”, “El espejo”, “Verte volver”).

 

Thydêwá: um colectivo multicultural que dá voz aos povos indígenas

Criada na Bahia (Brasil) em 2002, a organização Thydêwá nasceu da alquimia multicultural de um coletivo formado por indígenas de Alagoas, Bahia e Pernambuco, dois paranaenses, uma gaúcha, um baiano, um chileno e um argentino. Seu objetivo é “promover a consciência planetária, valendo-se do diálogo intercultural, da valorização da diversidade e das culturas tradicionais, com vistas a um desenvolvimento integral para todos em harmonia e paz”.

A organização é responsável por um Pontão de Cultura Indígena chamado Esperança da Terra. Entre os principais projetos realizados pela ONG estão a rede Índios On-Line, a Oca Digital e a série de livros “Índios na visão dos índios”. Em 2015, Thydewá foi uma das ganhadoras do Edital IberCultura Viva de Intercâmbio, com o projeto Kwatiara Abya Yala (Escritura Indígena de América). Kwatiara é uma coleção de livros digitais de autores de diferentes etnias do território brasileiro. Com o apoio do programa IberCultura Viva, a coleção passou a ser ibero-americana, incluindo dois e-books produzidos em comunidades indígenas da Argentina.

Neste ciclo de cinema, Thydewá apresenta dois videos: “Mensagens da Terra”, documentário de 13 minutos com direção da indígena Maria Pankararu (rodado no Brasil, em português, e aqui exibido com subtítulos em espanhol), e “Aldeia do Cachimbo”, dirigido pelo presidente da Thydêwá, Sebastián Gerlic, um argentino radicado no Brasil há 25 anos.

“Mensagens da Terra”, o curta-metragem de Maria Pankaruru, mostra os sentimentos, opiniões e visões de quatro indígenas que refletem sobre a realidade local e global e incitam o público a repensar o que hoje se entende por “civilização” e para onde ela tem ido.

 

 “Aldeia do Cachimbo”, por sua vez, reúne diferentes relatos e gerações como uma forma de valorizar a memória viva, como um convite afetuoso aos brasileiros para que reflexionem sobre sua história e sua identidade. O documentário, que conta com direção e câmera de Gerlic, é resultado de um trabalho coletivo e colaborativo que destaca o protagonismo da comunidade indígena da Aldeia do Cachimbo. Neste processo de cocriação, 15 indígenas e 3 não indígenas passaram 15 dias juntos na aldeia. Neste curta de 14 minutos de duração, todos eles narram a reconquista de seu território e compartilham a alegria que significa poder viver juntos em uma mesma comunidade.

 

Coletivo Kuchá Suto de San Basilio de Palenque: mantendo a memória viva

O Coletivo de Comunicações Kucha Suto nasceu na Colômbia em 1999, com o propósito de criar processos para manter viva a memória das tradições ancestrais afro-colombianas próprias do território de San Basilio de Palenque, Bolívar. Seu nome significa “Escute-nos” em palenquero. Com este grupo de narradores e narradoras da memória, o cinema em San Basilio de Palenque tem sido um exercício coletivo de criação e reflexão constante, acerca da realidade que se experimenta e as apostas sobre o futuro da comunidade, por meio da recuperação de suas vozes e histórias.

Os dois curtas que o Kuchá Suto de San Basilio de Palenque apresenta neste ciclo de cinema são criações coletivas que contaram com a participação de mais de 25 pessoas nos roteiros. Uma delas é “Fausto”, dirigida por Rodolfo Palomino Cassiani, sobre um jovem de 17 anos acostumado à vida do campo e à felicidade em familia, e que depois do assassinato de seus pais tem que se refugiar no povoado vizinho, na casa de um tio, levando consigo transtornos mentais. Com a solidão e o isolamento na casa do tio, a saúde mental do jovem piora a cada dia e diminuem as possibilidades de realizar seus sonhos.

O outro curta do coletivo, “Plan de fuga”, tem a direção de Gleidis Paola Salgado Reys, uma palenquera que encontrou no cinema comunitário e na produção audiovisual um caminho artístico e uma possibilidade pedagógica criativa. “Plano de fuga” narra (em dialeto palenquero, com subtítulos em espanhol) a história de Mambalá, uma negra cimarrona que persistiu na ideia de manter a unidade de um grupo de mulheres que, durante uma fuga liderada por rebeldes cimarrones, conseguem chegar ao território livre de Palenque graças aos mapas trançados nas cabeças de suas próprias filhas.

 

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